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Então, boas tacadas XXIX
O
golfe e a promoção
O tema dá que pensar. Quando me
lembrei de escrever algo sobre a matéria, o meu pensamento esvoaçou, por
alguns segundos, por uma infinidade de aspectos relativos ao marketing, à
promoção, à publicidade, à fotografia, aos eventos, às relações públicas do
golfe. Seria estultícia da minha parte analisar, em apenas um artigo, toda a
problemática da promoção do golfe nacional. Vou tentar não ser prolixo.
Recentemente, foi aprovado pelo
Governo, o Plano Estratégico Nacional de Turismo – PENT – que está em plena
execução. No seu ponto 1. o PENT refere-se a Produtos, Destinos e Pólos, com
uma alínea focando a necessidade de “requalificação de destinos, com
prioridade para o Algarve”.
O PENT define ainda quais os 10
Produtos estratégicos do Turismo nacional e que são:
-
Gastronomia e vinho.
-
Touring
cultural e paisagístico.
-
Saúde e
Bem-estar.
-
Turismo
da Natureza.
-
MICE.
-
Turismo
residencial.
-
City
short-breaks.
-
Golfe.
-
Turismo
náutico.
-
Sol &
Mar.
Curiosamente o Golfe tem a ver
com quase todos os outros, de uma ou outra forma, excepto o Turismo náutico.
O PENT engloba ainda um programa
de grandes eventos de carácter internacional e, no que diz respeito ao golfe,
aprovou um programa bastante interessante, a três anos, que inclui o “Portugal
Masters” e que se jogará no Victoria em Vilamoura de 18 a 21 de Outubro deste
ano.
Até aqui tudo bem.
A “requalificação dos destinos,
com prioridade para o Algarve” deve estar a ser aplicada no heading
“ALLGARVE”, que tem suscitado fortes críticas em especial de algumas
individualidades políticas da região e que eu compreendo muito bem.
Pessoalmente acho que o Algarve é, sem dúvida: “ O melhor destino de golfe do
mundo, durante todo o ano”, mas lá não “cabe tudo”. Nem interessa que caiba. O
Algarve é qualidade, não é massificação. Porque se é “all” é porque é tudo
e…não é! A menos que seja publicidade enganosa. E isso de “all” é requalificar
para baixo.
Em termos de publicidade, com
base em anúncios de imprensa que depois tem aplicação nos mais diversos
suportes, desde a Internet até à afixação em autocarros ou out-doors, passando
por todos os artigos below-the-line que compõem a publicidade ( brochuras,
capas, sacos, mensagens, separatas, gadgets, etc.etc.) é que está o busílis.
Recordo as duas campanhas
anteriores de que fui bastante crítico e que tinham por base os seguintes
headings:
A campanha do “Warm by
nature”do golfe, consistia numa fotografia base de praia onde um “eventual”
profissional de golfe, com ar sorridente, segurava uma outra fotografia de um
campo de golfe e tendo a tal frase por cima das suas partes pudendas.
Poder-se-ia inferir que a) a recepção dos golfistas em Portugal era feita por
profissionais de golfe, o que é falso e b) que o nosso país é um destino
sexual embora algo vago. Bem sei que a análise é um pouco subjectiva ou tem
algo a ver com a minha própria forma de estar no mundo, mas também sei que
estou na “média” e que muita gente pensa como eu. Ou como o meu prezado
leitor. O que é certo é que Portugal “ não é um destino de turismo sexual” e
que não interessa ao país que alguém pense nisso, mesmo que remotamente.
A campanha seguinte era a do “Go
deeper” e dos oceanos. Também neste heading, uma vez mais os aspectos sexuais
são quase explícitos – também não tenho nada contra isso – mas “quand même” –
e, por outro lado, os “oceanos” e o Oceânico Atlântico em particular, na mente
dos norte-europeus, é um mar encapelado de vagas alterosas, muito ventosas e
frias. Creio que não interessa ao país passar esta imagem, nem mesmo para o
“turismo náutico”. A aplicação deste “heading” e do conceito de oceanos acabou
por ser utilizado num anúncio de imprensa de golfe, repito de golfe, em que no
lado superior esquerdo estavam, quase que etereamente, dois indivíduos
sentados à beira de uma piscina, com os dedos dos pés e as respectivas
calosidades, em primeiro plano. Este anúncio foi publicado em dezenas de
revistas e tinha mais duas versões tão espectaculares como esta, mas que me
eximo de comentar.
A actual campanha tem uma vez
mais um conceptual de golfe que considero completamente errado. Tem por base
um heading que diz : “energy source” e uma fotografia com um campo de golfe,
um sand wedge e uma bola de golfe. Parece tudo bem? Vamos ver em pormenor:
“Energy source” : acho que seria
mais adequado usar como fonte de energia um “Drive”. Não vejo que o sand-wedge
transmita à bola ou ao jogador uma especial energia. A menos que sejam como eu
e tenham um sand-wedge atrás da porta do quarto,- o taco mais pesado do set de
golfe,- para me defender de algum infeliz larápio que se atreva a invadir a
minha privacidade. A seguir, o sand-wedge está em cima de um tee no meio da
relva de um fairway. Ora francamente, como é que um british vai levar a sério
o golfe nacional quando a base da sua publicidade internacional tem um
sand-wedge em cima de um tee? No way! Por outro lado o taco está direccionado
para o leitor, i.e., não está virado para o lado do green. Aquela bola vai ser
atirada na sua direcção. Atenção. É extremamente agressivo. Ah! Já me
esquecia, pode ser que o autor da brincadeira pensasse que o leitor é um
potencial larápio! E, finalmente, tudo isto tem uma dose elevada de “non sense
à la Ionesco”. É que o bunker e o green para onde deve ser jogada a bola –
aquela bola - está do outro lado, lá ao fundo.
Três campanhas, três equipas de
jovens copy e designers, mais inclinados para Cuba, Tailândia e Fortaleza, num
caso; também vocacionados para a natação de alto-mar no segundo caso e
energias sustentáveis e agressivas no último, que indiciam a criatividade de
algum ambientalista mais descontente com esta coisas do golfe.
Isto é no golfe! Uma simples
modalidade desportiva, jogada pelas elites endinheiradas e pelo “jetset”!
Imagino o que se faz em todas as outras modalidades mais a sério. Ou é para
rir?
Então, boas tacadas e já agora
boas férias e…com muita natação!
Fernando Nunes Pedro
fnp-golfe@netcabo.pt
2 de Julho de 2007 |